5. INTERNACIONAL 22.8.12

1. UM VICE DE ALTO RISCO
2. CONDENADAS E CONVICTAS
3. CAI A MSCARA

1. UM VICE DE ALTO RISCO
Ao escolher Paul Ryan, Romney faz uma temerria mudana no foco da campanha: sai emprego, entra corte de gasto social.
ANDRE PETRY, de NOVA YORK

     Os republicanos tm uma queda por vices do barulho. H quatro anos, quando Sarah Palin pisou pela primeira vez no palco na condio de candidata a vice de John McCain, deu-se um terremoto poltico. Jovem, carismtica e sensual, o furaco Palin era o assunto dos assuntos at sua imagem desmoronar diante das incontveis demonstraes de imbecilidade. Agora  a vez de Paul Ryan, o vice escolhido pelo republicano Mitt Romney. Jovem, telegnico e articulado, Ryan tornou-se instantaneamente o assunto da campanha. Tal como Palin, ele  uma estrela do conservadorismo agudo do Tea Party, mas, ao contrrio dela,  um radical com ideias. Chegou ao prestigioso posto de candidato a vice-presidente depois de celebrizar-se como autor de uma proposta de cortar 6 trilhes de dlares de gastos do governo federal em dez anos. Sua indicao d nitidez ideolgica  chapa republicana, contrastando com Mitt Romney, cujas posies gelatinosas j lhe valeram o apelido de vira-casaca serial. Essa  a bno de Ryan. O risco  que se torne sua maldio.
     Paul Ryan vem de uma abastada famlia de empreiteiros. Caula de quatro filhos, nasceu e cresceu em Janesville, cidade de 64.000 habitantes no Wisconsin. Aos 16 anos perdeu o pai, vtima de um fulminante ataque cardaco, e mergulhou na leitura para descobrir quem era e o que queria. Tornou-se um discpulo militante de Ayn Rand, a filsofa russo-americana que escreveu A Revolta de Atlas, uma exaltao pica do capitalismo em forma de m literatura. Fiquei fascinado, diz. Estudou cincia poltica e economia em Ohio e, assim que pegou o diploma, mudou-se para Washington. Aos 28 anos, elegeu-se deputado. Aos 42, est no stimo mandato, mas foi s a partir de 2010 que sua estrela comeou a brilhar, quando ele ganhou o cargo de presidente da poderosa Comisso do Oramento da Cmara.
     Antes disso, Ryan gostava de esbaldar-se nos cofres pblicos. Durante o governo de Bush filho, aprovou as medidas que fizeram o dficit explodir em 5 trilhes de dlares: duas guerras invencveis, o socorro bilionrio aos bancos, o corte de impostos e a expanso do Medicare, o popularssimo programa de sade que atende os aposentados. Tambm integrava a categoria dos polticos que abastecem seu curral eleitoral com verba pblica: 400.000 dlares para tratamento de gua na sua cidade, 300.000 dlares para uma escola de retreinamento de operrios, 735.000 dlares para o transporte pblico de Janesville, 3,3 milhes para estradas  especialidade de sua famlia de empreiteiros. Hoje, transformado num fiscalista rigoroso, envergonha-se desse passado recente.
     Sua proposta para reduzir o dficit, batizada de Caminho para a Prosperidade,  to radical que assustou at os prprios conservadores. Elimina 6 trilhes de dlares de gastos em dez anos, sendo que cerca de 60% dos cortes atingem programas voltados para os americanos de baixa renda. O Medicare, programa de sade dos aposentados, ficaria como est para quem tem mais de 55 anos, mas os demais passariam a receber um subsdio fixo para os gastos com sade. Calcula-se que seu plano aumentaria em mais de 6000 dlares a despesa pessoal dos mais velhos. Com 99 pginas e 95 notas de rodap, o plano de Ryan foi chamado de o mais longo bilhete de suicdio poltico da histria.
     Com a chegada de Ryan, o foco da campanha de Romney, antes centrado na economia e na gerao de empregos, subitamente mudou: agora, s se fala em dficit fiscal, corte de gastos e Medicare. Os republicanos garantem que a mudana lhes trar dividendos eleitorais. Os democratas acham que o plano de Ryan jogar os votos decisivos da Flrida, epicentro do eleitor aposentado, no colo do presidente Barack Obama. O certo  que os republicanos fizeram uma manobra de alto risco: trocaram um tema de pacfico consenso (gerar empregos) por outro altamente controvertido (cortar gasto social).
     A militncia conservadora gostou. Romney e Ryan tm qumica, parecem pai e filho e at j choraram de emoo num dos primeiros palanques que dividiram. Trs dias depois da escolha de Ryan, 100.000 eleitores deram 7,4 milhes de dlares de contribuio eleitoral on-line, 1,5 milho visitaram o site da campanha e alguns milhares curtiram a pgina de Ryan no Facebook. O problema  que, no eleitorado em geral, o efeito foi bem menos vistoso. S 39% acharam que a escolha de Ryan foi a melhor possvel.  o porcentual mais baixo desde que o Gallup comeou a avaliar a popularidade dos vices na arrancada. Antes de Ryan, o pior desempenho era de Dan Quayle, que concorreu como vice de Bush pai em 1988. Mas, apesar da baixa popularidade, Quayle exerceu o cargo de vice por quatro anos. 


2. CONDENADAS E CONVICTAS
As russas da banda punk Pussy Riot no se abalaram aps receber uma sentena de dois anos de cadeia por se oporem ao autoritarismo de Putin.

     Um protesto apenas ousado e um tanto tolo, que em qualquer democracia renderia no mais do que uma passagem rpida pela delegacia e uma multa, na Rssia do presidente Vladimir Putin foi considerado grave o bastante para ceifar a liberdade de trs das quatro jovens que o protagonizaram. Na sexta-feira passada, Maria Alekhina, de 24 anos, Yekaterina Samutsevich, de 30, e Nadia Tolokonnikova, de 22, integrantes da banda Pussy Riot, foram condenadas a dois anos de priso em Moscou pelo crime de vandalismo por dio religioso. Em fevereiro, elas haviam subido ao altar da Catedral de Cristo Salvador para denunciar o apoio desavergonhado do lder da Igreja Ortodoxa, o patriarca Kirill, a Putin, ento candidato  Presidncia. O grupo punk foi formado em setembro de 2011, depois que Putin anunciou seus planos de perpetuar-se no poder. Com roupas e mscaras coloridas, suas integrantes tornaram-se o smbolo mais dicaz da oposio. Presas desde maro, as jovens defenderam no tribunal o carter poltico da manifestao na catedral. Seus advogados apelaro do veredicto, mas a intolerncia do governo russo, que controla o Judicirio, no d chance  esperana. As condenadas, duas delas mes de crianas pequenas, no se abalaram ao ouvir a sentena. Como disse Tolokonnikova durante o julgamento, apontando para a juza e os procuradores: Ns podemos dizer o que queremos. Vocs, contudo, tm a boca costurada.


3. CAI A MSCARA
Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, ganha asilo do Equador, cujo governo  a anttese do que ele prega.

     O australiano Julian Assange pode se candidatar ao livro dos recordes como o homem que mais rapidamente construiu e, em seguida, destruiu a prpria reputao. Em 2010, seu site WikiLeaks estremeceu as relaes internacionais com a divulgao de relatrios militares sobre as guerras do Iraque e do Afeganisto e telegramas da diplomacia americana. Assange era, ento, um idealista lutando em prol da transparncia e da democracia. Dois anos depois, l est ele, enfurnado na Embaixada do Equador em Londres, confiando na hospitalidade de um dos governos que mais desrespeitam a liberdade de expresso na Amrica Latina. Acusado de abuso sexual por duas ex-voluntrias suecas do WikiLeaks, Assange deveria ter sido extraditado da Inglaterra para Estocolmo em junho para ser julgado. Em vez disso, refugiou-se na embaixada, alegando que, aps ser enviado para a Sucia, o prximo pas a pedir sua extradio seriam os Estados Unidos, interessados em puni-lo pela divulgao dos documentos secretos. A verdade  que no h ainda nenhum processo em curso contra Assange nos Estados Unidos e, mesmo se houvesse, no  certo que a Sucia aceitaria extradit-lo. Apesar disso, o presidente Rafael Correa, do Equador, que no perde a oportunidade de espezinhar os americanos, comprou a tese conspiratria de Assange e concedeu-lhe asilo poltico na semana passada.
     No h nada que impea o governo do Equador de dar asilo a quem quer que seja. Da mesma forma, no h o que possa obrigar a Inglaterra a conceder um salvo-conduto para permitir que Assange v at o aeroporto mais prximo e viaje at Quito. Criou-se assim um impasse que s pode ser resolvido por meio de negociaes diplomticas ou, se Assange no preferir se entregar  polcia inglesa, pelo tempo. No so raros os casos na histria da diplomacia de pessoas que passaram anos refugiadas em embaixadas.
     O governo, a Justia, a imprensa e at os acadmicos ingleses no cansam de manifestar estupefao diante do impasse. Jamais algum se refugiou em uma representao diplomtica na Inglaterra, uma democracia plena, alegando perseguio. A postura de Assange  ridcula. Ele  acusado de delitos graves e teve a proteo do sistema legal ingls, que lhe deu a possibilidade de recorrer em todas as instncias, diz o advogado Gavin Phillipson, da Universidade de Durham. Pensando bem, no se poderia esperar outra coisa de um hacker que divulgou segredos de estado escudado na liberdade de imprensa, mas que aos poucos deixou transparecer que sua real motivao era o dio ao capitalismo, aos Estados Unidos e a seus aliados  como demonstrou em fevereiro passado em sua entrevista cordial e risonha com o lder do grupo terrorista libans Hezbollah, Hassan Nasrallah. Os jornalistas equatorianos adorariam ter Assange como colega em seu pas. Se ele realmente defende a liberdade de imprensa, ficar comovido com nossa situao, diz Juan Carlos Caldern, diretor da revista Vanguardia, que neste ano teve vinte computadores confiscados pelo governo aps a publicao de denncias de corrupo. 
NATHALIA WATKINS

